MÁRIO DE CARVALHO

romancista, contista, dramaturgo e argumentista português

Obras

Destaque

X

Burgueses somos nós todos ou ainda menos

Um marido recalcitrante ludibriado pela mulher defunta; um casal num jantar de amigos, elas amigas íntimas dele; um recém-viúvo percorrendo a lista das suas conquistas mais assíduas, dois homens de meia-idade rememorando no luxo das suas casas os tempos de jovens revolucionários; doutores, engenheiros, administradores em tensão, todos em certa vivenda às Avenidas Novas, banco de grandes investimentos; uma enfermaria de hospital; cortejo e exéquias; engates de esquina; os filhos dos outros; traições e uma vingança sórdida; retalhos de vida, de uma sociedade, de um Portugal desencantado, sob o olhar sempre irónico de Mário de Carvalho.

Burgueses somos nós todos ou ainda menos

Um marido recalcitrante ludibriado pela mulher defunta; um casal num jantar de amigos, elas amigas íntimas dele; um recém-viúvo percorrendo a lista das suas conquistas mais assíduas, dois homens de meia-idade rememorando no luxo das suas casas os tempos de jovens revolucionários; doutores, engenheiros, administradores em tensão, todos em certa vivenda às Avenidas Novas, banco de grandes investimentos; uma enfermaria de hospital; cortejo e exéquias; engates de esquina; os filhos dos outros; traições e uma vingança sórdida; retalhos de vida, de uma sociedade, de um Portugal desencantado, sob o olhar sempre irónico de Mário de Carvalho.

Porto Editora| ISDN:978-972-0-03063-4| 1a edição| 2018



Cronovelemas

Cronovelema: primeiro, o tempo, chronos, os dias de hoje, mais coisa, menos coisa. Depois, tudo o que se acarta para a construção destas ficções e também se encontra ao escandir o vocábulo. Lá ressalta o novo e, logo, a novela.

De um lado, um jovem casal desavindo, a viver para as bandas do Lumiar e frequentador de certa Avenida de Roma, pondera sobre qual o destino a dar à tartaruga doméstica. O animal, sem nome, preguiça num aquário e a solução tarda, bem como o desenlace da dupla, a braços com o final iminente da relação. 

Do outro lado, dois gandulos planeiam, estendem a rede e montam a urdidura.

Mas eis que o destino se intromete, hábil a turvar os planos e rasteirar os desígnios… e, claro, convém não esquecer o diabo, sempre atrás da porta, vigilante, dizem que até a rezar.

Porto Editora| ISDN:978-972-0-03020-7| 1a edição| 2017



O Livro Grande de Tebas, Navio e Mariana

Um livro a várias vozes, sobre uma viagem por mar, num navio que é em si o resumo do mundo e também sobre a obsessão do narrador pela vaga e indefinida Cidade de Tebas. Esta é um lugar mítico, sombrio, guardada ao alto por cem torres, onde decorre um permanente cerco e onde todos os movimentos são circulares. Duas mulheres: Mariana, que espera eternamente junto de uma lareira e Magda, que sobe eternamente umas escadas.

Porto Editora| ISDN:978-972-0-04994-0| 3a edição| 2017



Novelas Extravagantes

Quatrocentos mil sestércios. Uma dívida por cobrar. Um filho de centurião numa demanda pelas carreteiras dessa Lusitânia, cada ventura desfiando sua desventura, e a deusa Fortuna de guarda às peripécias deste pobre cidadão romano. As Cruzadas. Um cavaleiro regressa da Mourama. Uma promessa por cumprir, uma nubente amarga que exige desafronta, e a deusa Fortuna que não recompensa os audazes. Os últimos tempos do Marcelismo. Um jovem revolucionário num périplo nocturno por Lisboa. Toda uma cidade de conluio com a polícia política para o apanhar, e a deusa Fortuna que falha ao encontro em certo dia de Abril.

Porto Editora| ISDN:978-972-0-04750-2| 1a edição| 2015



Ronda das mil belas em frol

Eis um livro de ficção sobre sexo. Todas as histórias nele contidas narram percalços, espantos e sobressaltos de ligações íntimas entre homens e mulheres. O que se desvenda, o que se oculta. Rasgos perversos. Permanências e ruturas. Nem sempre se encontra o que se espera, nem se espera o que se encontra. A variedade é avassaladora. A diferença inevitável. Neste jogo de corpos enlaçados, não poucas leitoras ficarão admiradas com certo olhar masculino. Talvez passem a conhecer ainda melhor outras mulheres. E os leitores também não perdem nada em saber o que pode surpreendê-los nas voltas do mundo.

Porto Editora| ISDN:978-972-0-04864-6| 1a edição| 2016



A Paixão do Conde de Fróis

Romance histórico, decorrido no Séc. XVIII, conta a história de um jovem nobre que, pela sua conduta, é desterrado pelo Marquês de Pombal para uma praça do Norte de Portugal. Esta praça longínqua, abandonada e sem qualquer valor estratégico, é invadida durante a Guerra dos Sete Anos. Contra todas as expectativas, o jovem Conde de Fróis resolve defender valorosamente aquela fortaleza.

Porto Editora| ISDN:978-972-0-04779-3| 5a edição| 2015

PRÉMIOS

  • Prémio D. Dinis|1986



Sala Magenta

Na casa da sua irmã Marta, perto da Lagoa Moura, um cineasta reequaciona a sua vida falhada e relembra a sua história de amor com Maria Alfreda. Uma história de paixão inconclusa, um encontro tornado desencontro, onde nenhum se converteu ao outro e que se tornou numa cicatriz na memória.

Porto Editora| ISDN:978-972-0-04499-0| 2a edição| 2015

PRÉMIOS

  • Prémio Fernando Namora|2009
  • Prémio Vergílio Ferreira (pelo conjunto da obra)|2009
Plano Nacional De Leitura



Fantasia para dois coronéis e uma piscina

Num monte alentejano, à beira de uma piscina, dois coronéis que serviram no Ultramar comentam o Portugal contemporâneo. Juntam-se a eles as suas duas mulheres, em tudo contrárias entre si e um jovem vedor de água, também jogador de xadrez, que percorre velhos caminhos no seu automóvel. Um mocho e um melro vão assistindo e comentando o que se passa.

Porto Editora| ISDN:978-972-0-04715-1| 2a edição| 2015

PRÉMIOS

  • Prémio PEN Clube Português de Ficção|2004
  • Grande Prémio de Literatura ITF/DST|2004



Quem disser o contrário é porque tem razão

Ser escritor. O texto ficcional. Dilemas, enigmas e perplexidades do ofício. No vale das contrariedades. Nada do que parece é. O «assertivismo» é um charlatanismo. A valsa dança-se aos pares: escrita e leitura, autor e leitor, personagem e acção, causalidade e verosimilhança, contar e mostrar, o dentro e o fora, a superfície e o fundo. O bico-de-obra do primeiro livro. Por onde começar? Com que começar? Com quem começar? A manutenção do interesse. Não há regra sem senão; não há bela sem razão. Ou o oposto. Riscos, cautelas e relutâncias.

Porto Editora| ISDN:978-972-0-04699-4| 1a edição| 2014



Contos Vagabundos

Estes contos são vagabundos porque não param de caminhar, percorrem as estradas do arco-da-velha, deambulam pelos recantos mais sombrios, mas também surgem à claridade do dia, marcham alegremente e intrometem-se, com ironia, nas tramas do nosso quotidiano. Pelo caminho, vão deixando o mundo às avessas, interpelando o leitor e desafiando-o para a aventura e para as perplexidades da vida e da literatura. 
O demónio também faz por aqui as suas andanças.  Insiste em pôr-nos um espelho na frente. 

Porto Editora| ISDN:9789720046406| 2a edição| 2014
Plano Nacional De Leitura



Era Bom que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto

Depois do novo chefe o remeter a um gabinete sem importância, Joel Strosse Neves resgata as suas ideologias políticas de juventude e decide aderir ao Partido Comunista Português. Todavia depara com os maiores obstáculos que o impedem de concretizar esta ideia. No entretanto, conhece Eduarda Galvão, uma jovem jornalista decidida, ignorante, pérfida, dona de um oportunismo capaz de tudo.

Porto Editora| ISDN:9789720046413| 0a edição| 2014



Casos do Beco das Sardinheiras

O Beco das Sardinheiras é um beco como outro qualquer, encafuado na parte velha de Lisboa. Uns dizem que é de Alfama, outros que é já da Mouraria e sustentam as suas opiniões com sólidos argumentos topográficos, abonados pela doutrina de olisiponenses egrégios. Eu, por mim, não me pronuncio. Tenho ideia de que ali é mais Alfama, mas não ficaria muito escarmentado se me provassem que afinal é Mouraria. Creio que o nome lhe vem das sardinheiras que exibem um carmesim vistoso durante todo o ano, plantadas num canteiro que rompe logo à esquina, não longe da drogaria que já fica na Rua dos Eléctricos. A gente que habita o Beco é como as demais, nem boa nem má. Tem sobre os outros lisboetas um apego ainda maior ao seu sítio e às suas coisas. Desde há muito tempo que não há memória de que algum dos do Beco tenha emigrado de livre vontade.

| ISDN:9789720044365| 0a edição| 2013
Plano Nacional De Leitura



A Liberdade De Pátio

Um homem é incumbido de transportar uma estranha caixa contendo uma cabeça. Um excelso professor vê-se condenado a passar o resto dos seus dias numa prisão deveras invulgar. A história por detrás da internacionalização de uma das maravilhas culinárias de Portugal. Quatro professores reformados que o destino uniu num jardim municipal decidem aliar as suas bibliotecas. Um frequentador assíduo do metro calha em faltar com a sua palavra, despertando a indignação de um dos funcionários. Um comandante da Marinha incapaz de aceitar um não. As memórias da iniciação sexual de um jovem, num tempo em que os tios tornavam a seu cargo essa tarefa. Sete contos. Sete histórias que representam a multiplicidade de registos na escrita inigualável de Mário de Carvalho.

Porto Editora| 1a edição| 2013

PRÉMIOS

  • Grande Prémio De Conto|2012
  • Grande Prémio De Conto|2013
Plano Nacional De Leitura



Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde

No reinado de Marco Aurélio surgem bizarros sinais de decadência. Lúcio Valério Quíncio, magistrado de Tarcisis, cidade romana da Lusitânia no século II d.C, enfrenta uma série de ameaças. Uma delas, uma estranha seita, a Congregação do Peixe, que adora um único Deus, dirigida pela mulher que ele ama sem saber, põe em causa os valores de Roma. No entanto, Lúcio Valério Quíncio não prescinde nunca dos ditames da sua consciência.

Porto Editora| ISDN:978-972-0-04433-4| 0a edição| 2017

PRÉMIOS

  • Grande Prémio de Romance e Novela APE/IPLB|1994
  • Prémio Fernando Namora|1996
  • Prémio Pégaso internacional de Literatura|2007
  • Prémio Literário Giuseppe Acerbi (Itália)|2007
Plano Nacional De Leitura



A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho

Quando um belo dia os tempos se misturam e confundem instala-se o pandemónio na Avenida Gago Coutinho em Lisboa e sobra para todos os restantes contos deste livro.

Porto Editora| ISDN:9789720044358| 6a edição| 2016
Plano Nacional De Leitura



Os Alferes

“Era uma vez um Alferes” e outras duas histórias sobre jovens oficiais do exército num ambiente militar de guerra ou ocupação colonial.

Porto Editora| 5a edição| 2013

PRÉMIOS

  • Prémio Internazionalle Città di Cassino (Itália)|1989
Plano Nacional De Leitura



O Varandim, seguido de Ocaso em Carvangel

Um canhão assombrando uma cidade. Um patíbulo armando de noite. Um istmo que conduz a uma cratera. Uma diligência cercada por cães selvagens. Nuvens de grifos imundos sobre o mar. A batalha sangrenta dos pescadores. Uma galeria de anarquistas, mais nobres que plebeus. A casa de Madame Ricciarda. A casa de Madame Musette. Dois jesuítas. Um padre que toca violoncelo. Um navio que não chega mais. Uma opereta com ecos de tragédia. Sol, luz, névoa e lua. Oito mulheres, amores, duplos, triplos e quádruplos. De como a vida engana a morte. Ou o inverso. Porque há em gente pacata uma apetência de morte tão grande? Porque é que nunca se regressa daquela viagem? Porque é que aquele navio não chega? Porque é que aquele canhão jamais dispara?

Porto Editora| 1a edição| 2012



Não há vozes não há prantos

Numa antiguidade oriental vagamente romanizada, algumas personagens, bem instaladas na vida , reclinadas num terraço, gozam o seu ócio e a sua relativa prosperidade. De repente acontece qualquer coisa no palácio do Imperador que os atemoriza, enche de dúvidas e desespero. Tudo se subverte.

INCM – Imprensa Nacional Casa da Moeda| 1a edição| 2012
Plano Nacional De Leitura



O Homem do Turbante Verde

Contos de paz e de guerra, de resistência e encantamento, de generosidade e de crueldade, de absurdo e demência.

Caminho| 1a edição| 2011



Quando o Diabo Reza

História de uma burla, cujo alvo é um velho endinheirado. Um grupo de vadios, que vivem de expedientes e negócios pouco claros, procura formas de ficar com o dinheiro do velho. Também as próprias filhas, estas da pequena burguesia, ambicionam a suposta fortuna do pai.

Tinta‑da‑china| 1a edição| 2011



Contos da Sétima Esfera

Livro de contos, entre o fantástico e o maravilhoso, que percorrem os mais estranhos universos, viajam no espaço e no tempo, e revisitam os velhos mitos e o fundo do imaginário popular.

Caminho| 4a edição| 2010
Plano Nacional De Leitura



A Arte de Morrer Longe

A arte de morrer longe conta a história de um jovem casal de classe média que não se entende e que se vai divorciar. No processo de partilhas surge um problema: quem é que irá ficar com a tartaruga? O que leva a que o processo se arraste e contribui para o seu desfecho.

Caminho| 1a edição| 2010



Quatrocentos Mil Sestércios seguido de O Conde Jano

Uma novela passada no tempo da Roma Imperial em que diversas personagens se debatem, em episódios burlescos por causa de uma pequena fortuna, seguida de uma balada melancólica, decorrida numa idade Média mágica, onde ressurge um amor demencial e cruel.

caminho| 2a edição| 1991

PRÉMIOS

  • Grande Prémio De Conto|1991



Se Perguntarem por Mim, Não Estou seguido de Haja Harmonia

Há rumores de que anda um tigre à solta num prédio suburbano. Os vizinhos assustam-se. Ouvem-se estranhos sinais que ninguém consegue decifrar na parede de uma prisão em certo país burlesco.

Caminho| 1a edição| 1999

PRÉMIOS

  • Grande Prémio APE (Teatro)|1999



E se Tivesse a Bondade de Me Dizer Porquê?

Folhetim saído semanalmente no Diário de Notícias entre Outubro e Maio de 1986, em colaboração com a escritora Clara Pinto Correia. Cada capítulo foi escrito por um dos autores sem prévia consulta ao outro. Os capítulos terminam deixando as personagens numa situação embaraçosa. História mirabolante que percorre territórios e tempos de fantasia que fazem lembrar os dias de hoje.

Rolim| 2a edição| 1986



O Homem que Engoliu a Lua

No Beco das Sardinheiras tudo pode acontecer. O que está em cima é igual ao que está em baixo, o que é estreito pode ser largo, o que é pequeno é grande também. É uma permanente alegria - olhem os desenhos de Pierre Pratt - de uma rua em festa que entende que nunca, mas nunca, se deve confundir género humano com Manuel Germano.

Porto Editora| 2a edição| 2015
Plano Nacional De Leitura



Apuros de um pessimista em fuga

Nos últimos tempos do Marcelismo um jovem passa uma noite em branco, procurando desesperadamente escapar à polícia política.

Caminho| 1a edição| 1999



O Capitão Passanha

Textos extraídos do livro Contos da Sétima Esfera.

Expo'98 - Lisboa| 1a edição| 1998



Água em pena de pato

A Rapariga de Varsóvia, O Sentido da Epopeia e O Desencontro, reflexões sobre um quotidiano em transformação, na vida familiar, nas velhas amizades, nos relacionamentos mal resolvidos.

Caminho| 0a edição| 1992



Contos Soltos

Contos sobre equívocos, escritores, e um basilisco.

Black Sun| 1a edição| 1986



Fabulário

Pequenos textos que encerram uma perplexidade, um espanto, ou o apelo a uma sabedoria antiga.

Caminho| 3a edição| 2006



Vida

ANTRE TEJO E ODIANA

De origem alentejana, Mário Costa Martins de Carvalho nasceu em Lisboa, na maternidade Alfredo da Costa em Setembro de 1944. Após uma breve passagem por Setúbal, a família instalou-se definitivamente na capital onde o seu pai foi um agente comercial bem-sucedido.

As frequentes deslocações a Alvalade onde tinha família, na própria vila e numa herdade próxima, o Monte da Vinha, deixaram-lhe a viva memória desse Alentejo da infância. E, bem assim, das situações de miséria e humilhação presenciadas nos tempos em que os camponeses trabalhavam de Sol a Sol e as forças policiais procediam como num país ocupado.

A avó um dia mostrou-lhe um poço em que estiveram escondidos dentro de um saco de lona os livros de seu pai, na ocasião em que ele foi preso pela polícia política, ainda solteiro. Nessa altura, contaram-lhe mais tarde, seu pai e os companheiros de prisão foram brutalmente espancados.

COMPANHEIROS TOM E JIM

Aprendeu a ler antes dos cinco anos, ensinado pela mãe, com a ajuda da «Cartilha Maternal» de João de Deus. Descobriu, nesses tempos, colecções d’ «O Mosquito», do «Capitão Morgan», e «Texas Jack» deixadas pelos familiares que já tinham crescido. Ainda não haviam chegado os tempos de «o Cavaleiro Andante» e «O Mundo de Aventuras». Mas Tintim anunciava-se com um comparsa chamado Capitão Rosa, um cão chamado Ron-rom e um amigo distraído, conhecido por Professor Pintadinho de Branco. Foi durante umas férias em Alvalade que o pai lhe trouxe um exemplar de «As Aventuras de Tom Sawyer» da Biblioteca dos Rapazes. Seguir-se-iam «A Ilha do Tesouro» de Stevenson e «A Ilha de Coral» de Ballantyne.

RUA DAS ENFERMEIRAS DA GRANDE GUERRA

Morou, durante anos, à Penha de França, na Rua das Enfermeiras da Grande Guerra, larga e íngreme, que há-de aparecer mais tarde nos seus textos, de forma mais ou menos transfigurada. Lisboa, brilhante e plurifaceta, será, a par do Alentejo, uma presença deslumbrada nas suas obras. Passou por um estranho colégio particular em que as professoras gritavam e davam reguadas. Aos sábados aparecia um capitão doutrinador, regurgitando Deus, Pátria e Família. O Externato «Martim de Freitas» era só para rapazes, mas as proprietárias transgrediam e admitiam raparigas que escondiam num quarto sempre que havia suspeitas de fiscalização ou denúncia.

CAVALGADA HERÓICA, RUMO AO ROYAL

MdC passou mais tarde ao liceu de Gil Vicente, o que representou um alargamento de horizontes abrangendo a Graça, a Senhora do Monte, Santa Clara, Alfama, Mouraria. As reminiscências dessas correrias até ao Castelo de São Jorge emergem em «Casos do Beco das Sardinheiras» e «O Livro Grande de Tebas, Navio e Mariana».

Na Rua da Graça, o velho e elegantíssimo cinema Royal apresentava sessões duplas, não raro com um complemento de suculentos westerns em magnífico Technicolor. Ao invés dos outros cinemas, as sessões do Royal começavam às 15, 15H, com um quarto de hora de atraso para permitir aos rapazes do liceu, depois de uma correria ofegante, chegar a tempo à sala escura. Antes, numa dessas tardes, um padre levemente enfadado dava umas aulas sonolentas de religião e moral que tiveram a vantagem de trazer ao conhecimento as histórias da Bíblia.

Por essa altura, a frequentação dos cinemas de bairro, Royal, Lys, Rex, Imperial, tinha como limite, para além da zona Almirante Reis/Graça as mesadas e as restrições censórias. A revista de cinema «Plateia» rebrilhava de estrelas e starlettes, laboriosamente maquilhadas, em cores de verniz carregado. Um filme como «Escrito no Vento» de Douglas Sirk era para maiores de 18 anos; «Shane», de George Stevens, era para maiores de doze usava-se toda a espécie de batotas e subterfúgios para iludir a vigilância à entrada.

O FASCISMO PEQUENOTE

O regime não se manifestava apenas na repressão das actividades políticas e dos direitos sociais. Existia um fascismo do quotidiano baseado num exercício arrogante de pequenos poderes, nas proibições arbitrárias, na humilhação permanente do outro. A «licença de isqueiro» e a proibição da «mão na mão» são apenas aspectos caricatos de um quotidiano opressivo e cinzento. Em 1959 MdC chegou a ser preso por legionários num calabouço do Castelo de S. Jorge por falar inglês com uma amiga inglesa sem ser «intrépete” (sic) oficial. Outros colegas do liceu passavam humilhações semelhantes por pecadilhos infantis. Era o tempo aviltado das denúncias, da bufaria, da corrupção formigueira, de um Portugal rasteirinho e torpe. Nos próprios liceus o autoritarismo imperava. Nomeava-se para chefes de turma os mais graduados da mocidade portuguesa, uma organização juvenil fardada, militarizada que praticava a ordem unida da tropa, exibia a saudação fascista de braço estendido, e impunha uma bizarra farda de camisa verde e calção amarelo cintado em fecho de lata com o «S» de Salazar. Tudo o que não era proibido era obrigatório. MdC escapou à ordem unida inscrevendo-se na secção de xadrez e passou a ser um entusiasta de Botwinik, Smyslov e razoável praticante da abertura Inglesa e da defesa Karo-Kahn. Não por acaso uma das personagens de «Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina» será jogador de xadrez.

CATÁSTROFE

Domingos de Carvalho relacionava-se com escritores do grupo neo-realista que encontrava na livraria Portugal, ao Chiado e num café, também chamado Portugal, da rua Primeiro de Dezembro e levava algumas vezes o filho consigo. Escreveu um livro de poemas, «Joio Sem Trigo» que teve uma boa aceitação. Mas logo o livro foi apreendido pela polícia política. O mesmo viria a acontecer com outros dois livros.

Havia em volta um clima de permanente ameaça. O pai mudava frequentemente de aspecto, talvez com alguma ingenuidade, pois era um comerciante estabelecido e conhecido nos meios da Baixa de Lisboa. Apareciam desconhecidos lá por casa, que às vezes ficavam para dormir e se mostravam pouco expansivos. Mais tarde soube que um dos alojados tinha sido o professor Ruy Luís Gomes, antigo candidato à Presidência da República pela Oposição Democrática.

Na campanha presidencial de 1958, Domingos Carvalho envolveu-se activamente no apoio ao general. Em 1959 seria preso, sujeito à tortura do sono e levado a julgamento no tribunal plenário.

As circunstâncias desta prisão, o lado soturno e deprimente da cadeia do Aljube, o desespero de uma vida que se viu seriamente abalada (mas também a solidariedade arriscada dos amigos) ficaram profundamente marcados na memória de MdC.

LUTA, CADEIA E EXÍLIO

Entretanto, MdC tinha entrado no liceu Camões onde foi aluno de Mário Dionísio e colega de turma de João Aguiar e Eduardo Prado Coelho.

Na faculdade de Direito acompanhou a movimentação académica de 1962, tendo feito greve aos exames nesse ano. Participou activamente nos movimentos estudantis, designadamente nas secções culturais e cineclubes universitários. A memória dessas correrias estudantis surge em alguns contos de «O Homem do Turbante Verde», como «A Secção de Campo» e «Bildung».

Após a vaga repressiva de 1965, que levou à prisão centenas de estudantes, faz parte do organismo clandestino encarregado de reorganizar o PCP, em grande parte destruído, na universidade de Lisboa. Depois de licenciado, e durante o serviço militar, é preso pela polícia política e sujeito a onze dias de privação de sono. Essa situação inspirou o argumento do filme de José Barahona Quem é Ricardo? Condenado pelo tribunal político a dois anos de prisão, cumpriu grande parte da pena nas cadeias de Caxias e Peniche.

Quando saiu, em Liberdade condicional, em 1973 avisaram-no que seria reincorporado no exército com guia para o batalhão disciplinar de Penamacor, onde eram agrupados, na altura, os criminosos de delito comum. Decidiu exilar-se e, a muito custo, conseguiu ligação a uma organização clandestina de passagem de fronteira.

Passou a fronteira ilegalmente e acabou por chegar a Paris onde viveu durante algum tempo em casa de amigos, sem documentos, até que encontrasse maneira de viajar para a Suécia onde tinha família.

Depois de a sua mulher e filhas se lhe juntarem, em Lund, ocorre a Revolução de 25 de Abril de 1974. Logo trata de regressar a Portugal.

TUDO O RESTO É LITERATURA

Após um período de intenso envolvimento na movimentação desses dias, em que teve o privilégio de conhecer, no calor da luta, José Saramago, Urbano Tavares Rodrigues, Maria Velho da Costa, Orlando da Costa e Manuel Gusmão, distancia-se da actividade política e dedica-se a uma advocacia de causas, designadamente sindicais.

No final dos anos setenta liga-se ao grupo «Quatro Elementos Editores», animado por Fernando Guerreiro. Em 1981 publica «Contos da Sétima Esfera», «Casos do Beco das Sardinheiras» e em 1982, «O Livro Grande de Tebas, Navio e «Mariana». Daí por diante, vem publicando com regularidade em vários géneros.

Durante alguns anos, conciliou o exercício da advocacia com a escrita que se estendeu ao teatro, ao cinema e à crónica. Em 1997, por ocasião da atribuição do prémio Pégaso a «Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde» foi-lhe propiciado um périplo pelos Estados Unidos e Canadá, onde participou no Festival de Harborfront. Apesar da sua conhecida renitência a viajar, tem participado, que se lembre, no Salon du Livre de Paris, 2000, Expolangues (1994), Ville Gillet de Lyon, Carrefours de la literature de Bordéus, Edimburgh Book Festival (1998), Feira do Livro de Frankfurt (dois anos), Encontros de Barcelona, Jounées Litteraires de Mondorf , Festival des Migrations des Cultures et de la Citoyenneté do Luxemburgo, Feira do Livro Internacional de Paraty, FLIP, em Parati, Brasil, e outros eventos remotos...

Foi vogal da Associação Portuguesa de Escritores, durante as presidências de David Mourão-Ferreira e Óscar Lopes.

Orientou pós-graduações em escrita de teatro e diversas oficinas de escrita de ficção e foi professor convidado da Escola Superior de Teatro e Cinema e da Escola Superior de Comunicação Social durante vários anos.

Casado com Maria Helena Taborda Duarte, é pai das escritoras Rita Taborda Duarte e Ana Margarida de Carvalho.

Deu-se ao trabalho de escrever este texto, muito resumido e na terceira pessoa para criar maior distância e para que conste, prometendo entrar no pormenor quando tiver ocasião

Contactos

Sociedade Portuguesa de Autores (SPA)

a/c ALA – Edição
Av. Duque de Loulé, 31 -1069-153 Lisboa,
Portugal
Tel: +351213594462/00
Fax +351213530257
edicao@spautores.pt
spautores.pt

Porto Editora

R. Professor Jorge da Silva Horta, nº 1
1500-499 Lisboa
Portugal
Tel 351218364050
delisboa@portoeditora.pt
portoeditora.pt

X