MÁRIO DE CARVALHO

MÁRIO DE CARVALHO

A Sala Magenta

  • Romance
  • 2008
  • Caminho

Sinopse

Perto de uma lagoa, na floresta, em casa duma irmã, um cineasta deita contas à vida, bebendo intensamente e verificando, no fundo de um copo, como a sua existência foi falha de sentido e o mundo que o rodeia é simultaneamente irrisório e ameaçador.

Primeira página

Dantes, tudo era um peso ancestral de quietação e vagar pelas matas de sobreiral e pinho em redor das águas represadas a que chamam Lagoa Moura, havendo perto umas ruínas que a memória popular não assinala além dos mouros. Então, carregavam-se de silêncio as formas, pasma­vam lassos os ramos, pendiam restos de carumas, tombavam as pinhas de velhas, empastavam-se as folhas mortas, deixavam-se as portadas entreabertas. Em chegando a noite, com o rarear dos pássaros, alteavam-se as sombras, delineavam-se os contornos, adensava-se o espaço, vibrava subtilmente o ar e milhentos pequenos rumores emergiam do solo num restolhar de sobrevivência. Na dobra do século, as brisas, mais rijas de ano para ano, entraram a balancear as copas, a revolver os gravetos, a frisar as águas, a desinquietar o silêncio e a fazer a demonstração prática e local de que o clima desvariava.

Outras Edições